segunda-feira, 14 de julho de 2014

Entrevista por email a Laurindo Almeida

1. Qual o teu primeiro contacto com a fotografia?
O meu primeiro contacto com a fotografia perde-se no tempo. Naquela altura a imagem, no seu todo era algo que me apaixonava, estávamos na altura do advento do design, das grandes discussões em torno de disciplinas como arquitetura e a própria fotografia, arte ou não arte, alternativa à pintura ou simples registo sem valor ... a reprodutibilidade que a fotografia apresentava atirava a fotografia muitas vezes para uma atividade de artífice, enquanto polulavam pelo cidade os estúdios, a esmaltagem ou os fotógrafos de cavalinho. Eu jovem estudante de artes e de arquitetura andava entusiasmado, não me faltavam propostas no campo visual, fazer um cartaz para ... desenhar um jornal de escola, um logotipo, e fotografar, fotografar tudo e todos, para mim, para um jornal, para uma exposição, para uma empresa, para um catálogo, para um casamento, batizado ou comunhão, para uma empresa para um amigo, para uma amiga ou simplesmente conhecido. O importante era fotografar ... revelar e fazer aparecer as imagens ...

2. Como desenvolveste o gosto pela fotografia?Basicamente fotografando e percebendo que na fotografia nunca estamos sozinhos, mesmo quando o fazemos solitariamente. Estamos sempre com quem fotografamos mesmo sem o conhecer ou lhe falar e essa relação prolonga-se no tempo quando o revelamos, imprimimos, retocamos ...

3. Que tipo de fotografia gostas de fazer?
Ainda não descobri qual o meu tipo de fotografia, penso que a fotografia que mais gosto de fazer é que vou fazer amanhã ...

4. Já leste algum livro sobre fotografia? 
De alguma forma quase todos os livros são de fotografia, a inspiração ou o conhecimento estão um pouco por todo o lado e não só na leitura. Realmente já li imensos livros sobre fotografia, quer técnicos, imprescindíveis no tempo em que a química era relevante na fotografia, mas úteis hoje em que a tecnologia domina e portanto temos que nos manter atualizados, quer de fotógrafos, quer de teoria em volta da fotografia. Confesso que acho atualmente, embora continua a ler um pouco de tudo que este terceiro tipo de livros são os mais interessantes. Penso ser difícil estar na fotografia sem nunca ter refletido sobre por exemplo e citando só alguns clássicos, sobre os escritos de Walter Benjamim ou alguns livros de Barthes.

5. Já fizeste algum curso de fotografia?
Embora seja formador de fotografia, tento participar em todas as oportunidades de formação pois aprendo sempre qualquer coisa em todas ...

6. Quais são as partes do dia que geralmente utilizas para fotografar (manhã, tarde ou noite)?
Utilizo as 24 horas do dia para fotografar, desde que possa e tenha disposição ou tenha que o fazer. Estou plenamente de acordo com a ideia generalizada de que o nascer do sol é a melhor hora para fotografar, embora tenha alguma dificuldade em fotografar a essa hora, por compromissos com a minha cama ... o final de dia fornece-nos também um tempo, magnifico para fotografar, e por sinal de maior duração que o inicio. Sou dinamizador de um coletivo fotográfico que se designa “Fotografia à hora do almoço – a pior hora para fotografar” e daí têm surgido imagens que não envergonham ninguém ... 

7. Qual é o equipamento de fotografia que geralmente utilizas?
Gosto de utilizar um pouco de tudo, embora goste mais do controlo que uma SLR ou DSLR me permite. Uma rangefinder ou uma CSC são uma escolha habitual ligeira, mas que não me deixam tão satisfeito, até por geralmente se observar pela eletrónica, pelo ecrã e não pelo visor ... às compactas não consigo de todo habituar-me e respeitando muito quem utiliza o telemóvel (ou o iPhone que teimam por elitismo a considerar outra coisa que não um smartphone) só o consigo utilizar como registo tipo bloco notas e não como fotografia. Limitações minhas decerto...

8. Já experimentaste várias máquinas fotográficas ou geralmente utilizas sempre a mesma?
Se o euromilhões algum dia acertar nos meus números, com uma dose elevada de certeza experimentarei diariamente um equipamento e/ou uma objetiva. Entertanto tento diversificar o mais possível as minhas experiências, e por vezes recorrendo mesmo a algum equipamento “pré-histórico” para me lembrar do porquê da nossa existência.
Nos cursos que ministro tento incentivar em sessões práticas a troca de equipamentos entre os discentes.

9. Já experimentaste fotografar com telemóvel?
Como já disse atrás utilizo a capacidade de fotografia dos telemóveis apenas como bloco notas.

10. Se fazes fotografia de retrato, tens algum modelo habitual?
Sim, o género humano ...

11. Quando viajas levas a máquina fotográfica contigo? O que procuras fotografar? Paisagens, Monumentos e/ou Pessoas?
Dificilmente me separa de uma máquina, ou várias. Antigamente dizia-se que em vez de fotografar monumentos mais valia comprar postais (hoje deve ser a procura no Google). Cada dia estou menos certo disso, em viagem tento manter-me o mesmo fotografo que na minha cidade, fotografo emoções, pelo menos as minhas. Claro que a ponte D. Luis vista ao vivo pela primeira vez é interpretada de maneira diferente de quem como eu a pode ver assiduamente, pelo que se calhar as grandes paisagens ou monumentos, em viagem, acabam por ser o principal motivo a fotografar, embora menos importante 
... o motivo que nos leva a um local deve ser o que não podemos descurar e devemos captar de inicio. Já pensaram ir fotografar um casamento e perdermo-nos na miríade de pormenores de tal forma que o momento das alianças se perde ? ... foi para isso que lá fomos. 

12. Em que modo costumas fotografar? (automático, manual, prioridade à abertura, etc.)
Utilizo todos os modos, mas preferencialmente o manual e a prioridade à abertura. Penso que na pergunta faltam, pelo menos, dois modos importantes – a prioridade à velocidade/tempo de exposição e o program.

15. Gostas mais da fotografia a cores ou P&B?
A fotografia a P&B era uma limitação técnica. Quando surgiu a cor tínhamos que optar entre que rolo meter na câmara. Seguiu-se depois um período obscuro em que o P&B era tratado por processos de cor ... e veio o digital. Só fotografo a cores, como (quase) todos. Em termos da apresentação final continua 
a gostar de uma boa fotografia bem impressa a P&B (e cinzentos), permitindo apenas contemplar os efeitos da luz. Tenho a impressão que muita da fotografia digital que se apresenta a P&B, se faz para esconder imperfeições técnicas ou incapacidade de lidar com a cor, que por verdadeiras opções pessoais ... 

13. Num universo de 750 fotos de qualidade consegues escolher as 10 fotos melhores?
Sem dúvida ! Normalmente por iterações sucessivas. Claro que esta escolha dependerá do tempo que tenho para a seleção e do meu estado de espirito, mas estou em querer que a minha escolha não será muito diferente.

14. Costumas publicar as tuas fotos em algum site de fotografia? Se sim, qual ou quais?
Só por exceção. Sinceramente não sinto nenhuma necessidade de partilhar as minhas fotos. O coletivo “fotografia à Hora do almoço” já atrás referido, tem por regra a publicação de até três fotografias por semana no Flickr e esta é a única publicação habitual. De quando em vez publico um pouco por todo o lado.

15. O que mais procuras num site de fotografia? (exposição das fotos, comentários, dicas, outros)
O mais importante seriam os comentários, a discussão franca e essa praticamente é inexistente, principalmente num país como o nosso, habituado à falta de competitividade real, por mérito mas às hierarquias impostas, ao compadrio, à corrupção ... 

16. O que mais te agrada na fotografia:
Antes do mais a liberdade numa segunda linha toda a mística associada à formação da imagem 

17. Quem mais te influenciou na fotografia?
È uma questão difícil. Politicamente fica bem respondermos a esta pergunta, mas eu não tenho esse tipo de ambições. Sinceramente acho que a minha primeira influencia foi um já falecido tio meu, arquiteto modernista da escola do Porto. Depois devorei intensamente revistas como a Photo durante a minha formação visual. O movimento neo-realista teve para mim um grande fascínio e também fotógrafos como Cartier Bresson. Mas provavelmente nenhum deles foi quem mais me influenciou. Tento interpretar a fotografia como vejo a vida, portanto as minhas contradições e literacia serão eventualmente mais importantes que tudo o resto ...

18. Porque é que a fotografia é importante para ti?
Porque me faz gastar uma parte significativa do meu rendimento e porque lhe dedico grande parte do meu tempo ...

19. Acreditas na expressão: Uma foto vale mil palavras? Se sim, porquê?
Não! Eventualmente uma “Uma boa foto vale ...”, mas esta é uma questão complexa, desde logo porque a educação visual das comunidades está ainda muito aquém da intensidade da utilização da imagem como comunicação. Se a palavra, que agora usamos menos, principalmente proferida, já é facilmente manipulada a imagem ganha assim maior permissividade a este fenómeno ...

20. Outra questão que entendas como interessante.
Quando vamos beber um copo, discutir e tirar umas fotos ?

por João Pires