domingo, 22 de novembro de 2015

Entrevista por email a José Paulo Andrade (PT)

Entrevista por email a José Paulo Andrade
Entrevista por email a José Paulo Andrade


Quando nasce o interesse pela fotografia?
Os meus interesses pela fotografia já existem há muitos anos. Comecei a fotografar na adolescência com uma máquina antiga que pertenceu ao meu pai. Esta experiência com a fotografia dita “analógica” foi fundamental para a compreensão dos mecanismos básicos da fotografia que depois utilizei com o advento da fotografia digital. Comprei a primeira máquina digital, muito rudimentar e limitada, em 1998, mas só em 2003 é que houve um salto quantitativo e felizmente, também um enorme salto qualitativo na minha fotografia.
Do  ponto  de  vista  técnico  existe  um  desconhecimento  do  que  é  uma  máquina fotográfica na população geral. Numa aula de Anatomia do olho, comecei a falar da analogia  clássica  entre  os  componentes  do  globo  ocular  e  o  de  uma  máquina fotográfica (lente, diafragma, rolo) e apercebi-me da ignorância absoluta sobre esta comparação que era compreensível pelos estudantes de 18 anos há anos atrás. Neste momento é carregar num botão e já está – aparece uma imagem! É preciso saber alguma técnica básica para obter imagens boas.
Costumo utilizar em 90% das vezes o modo de prioridade ao diafragma. Uso o modo manual, para astrofotografia e macrofotografia.

Qual a importância que a fotografia tem na sua vida?
É  muito  mais  que  um  “hobby”,  ou  seja  um  simples  passatempo.  Permite-me desenvolver imenso a minha criatividade e apresentar uma visão pessoal do mundo. Procuro não só registar o que me rodeia mas também encontrar a cor, harmonia e beleza  que  muitas  vezes  não  se  repara.  Tento obter  perspectivas  originais  e/ou pormenores que geralmente passam despercebidos. As fotografias geralmente são feitas ao domingo de manhã, por vezes antes de o sol nascer (na Ribeira) ou no fim do dia (na Foz e praias). Por vezes, mais raramente, faço “fotografia de rua” a horas “decentes”.

O que mais o inspira?
A cor é o que mais me inspira. Embora a imagem a preto e branco seja muitas vezes o mais escolhido  para  a  fotografia  “fine  art”,  o  que  eu  gosto  mais  é  a  cor (http://www.pbase.com/jandrade/color_and_shape).  Esta  cor,  aliada  à  forma  e  à complexidade das  estruturas  naturais (http://www.pbase.com/jandrade/shapes_nature; http://www.pbase.com/jandrade/lithos) são o motor das minhas fotografias.
Além disso, a cidade do Porto onde resido é uma outra fonte de inspiração contínua (http://www.pbase.com/jandrade/ruas_do_porto).  È  a  cidade  mais  fotogénica  que conheço, cheia de cor e contrastes. Na minha série sobre as “Ruas do Porto” apresento uma visão pessoal da cidade, também dominada muitas vezes pela cor. Tenho um trabalho dominado pelas  cores  vivas, uma grande nitidez e por  uma composição minimalista, muitas vezes abstracta.
Recentemente  só  tenho  posto  as  fotografias  mais  recentes  no  Facebook.  Vou selecionar brevemente outro sítio internacional para as colocar.

Qual a importância das críticas?
A selecção das fotografias pelo próprio e auto-crítica são importantes. É fundamental para escolher fotografias que se enviam a concursos fotográficos. No entanto,  a  crítica  feita  pelos  outros  é  essencial  para  desenvolver  a  técnica  e estimular a criatividade.  Nos meus primeiros tempos frequentei um sítio chamado Photosig onde as críticas eram bastantes e “honestas”, isto é, muito violentas para o ego. Ajudou-me bastante a progredir, depois de me habituar a ter críticas negativas. Os sítios portugueses não cultivam este tipo de crítica o que é mau!
Os meus defeitos assumidos são a saturação excessiva e,  por vezes, uso excessivo de “filtros” no Adobe Lightroom ou Photoshop.

O retrato para mim é um problema – não tenho modelos disponíveis dispostos a aturarem-me! Outro meu déficite é a fotografia com flash – lá está, tenho que ler e estudar como se faz.

fotografia de José Paulo Andrade
fotografia de José Paulo Andrade


O que é necessário para ser um bom fotógrafo?
É preciso esforço, perseverança e prazer no que se faz. Paciência e persistência e procurar ultrapassar os limites pessoais para melhorar e evitar a banalidade. Por vezes, é preciso insistir e voltar a um certo local para obter a luz numa forma ideal.
Raramente encontro fotógrafos de manhã cedo, o que é curioso! É a melhor luz de todo o dia, na minha opinião. Salvo, as raras e honrosas excepções, a maior parte dos fotógrafos portugueses são “preguiçosos”. Se folhear revistas de fotografia estrangeiras vê-se que grande parte de fotografias são obtidas de madrugada. Em Portugal, nas revistas e sites são muito raras as fotografias obtidas nestes momentos de “luz mágica”.
É importante para a evolução como fotógrafo participar em cursos vários ou falar com outros. A leitura, ou melhor a visualização das fotografias dos “mestres” e a dos “outros” é fundamental. Fiz alguns cursos  on line que foram bastante interessantes devidos aos desafios que lançam e à crítica. Fui também a algumas  workshops, das quais destaco as de Nanã Sousa Dias.
Costumo utilizar em 95% das vezes o modo de prioridade ao diafragma e focagem automática. Raramente uso o manual, a não ser para astrofotografia e macrofotografia.

Já fotografou com telemóvel?
O meu telemóvel actual (Iphone 5) é melhor que a minha primeira máquina digital! Fotografo bastante  e utilizo  vários programas disponíveis (apps)  para  melhorar as imagens. No entanto, é preciso conhecer as suas limitações, especialmente com pouca luz. Tenho uma grande galeria de fotografias de Iphone no meu Facebook. Uma boa máquina ajuda a obter boas imagens mas não é essencial. Com o telemóvel podem-se obter boas fotografias e ser bastante criativo.
Aqui,  no  Porto,  existe  um  grupo  bastante  activo,  baseado  na  app  EyeEm  e recentemente o espaço Mira (em Campanhã) lançou um concurso internacional (Mira Mobile Prize) com muito sucesso e fotografias óptimas.

Acredita na expressão “Uma foto vale mil palavras”?
A resposta está aqui, obtida com o meu  Iphone 5, com pouca luz disponível.
A minha primeira máquina – utilizei-a em 1973, num passeio da escola a Lisboa. Ainda tenho a fotografia de um avião pouco nítido no aeroporto através de uma vedação metálica.
A minha segunda máquina – fotografei com ela as corridas em Vila Real nos fins dos anos 70 (do século passado).
A  minha  terceira  máquina  – esta  foi  muito  utilizada.  Foi  com  ela  que “aprendi” verdadeiramente a fotografar, pois é totalmente “manual”. A partir daqui foram muitas máquinas “reflex” – da Pentax ME super até  à Nikon 801s (a partir daqui fiquei “Nikonista”). Já contemporâneo do digital fotografei com máquinas de médio e grande formato.
A minha primeira máquina digital. Quando a comprei perguntaram-me para que é que servia e disseram-me que nunca suplantaria as “verdadeiras” máquinas. A primeira com uso intensivo foi uma Fuji S602 e depois sucessivamente Fuji S2 Pro, Nikon D200, Nikon D2H, Nikon D700.

fotografia de José Paulo Andrade
fotografia de José Paulo Andrade


Qual é o equipamento que geralmente utiliza?
Nikon D800 e várias lentes (de grande angular a tele-objectiva). Tenho também uma pequena Fuji X-M1 e duas lentes Fuji X. Tenho um tripé de qualidade média e pesado (Manfrotto) e uma cabeça para o tripé medíocre (não aguenta com o peso da máquina com uma lente pesada). O tripé e cabeça são fundamentais para o meu “estilo” de fotografia. No meu Facebook coloco por vezes este conjunto “in loco” e em “directo”. Este é o material que se fui comprando ao longo dos anos – a maior parte dele em segunda mão ou no Ebay. Dica: existem sempre aqueles que estão a mudar de marca de máquina (Nikon para Canon e agora Fuji X) e vendem o material a muito bom preço.
A D700 foi literalmente foi varrida pelo vento com o tripé e caiu de 5 metros de altura.

Já leu algum livro de fotografia? Se sim, qual?

Génesis - Sebastião Salgado
Os Rapazes dos Tanques - Adelino Gomes
French Kiss - Peter Turnley
Monografia - Abelardo Morell
The Artificial of the Real - Anton Josef Trcka, Edward Weston, Helmut Newton
Brassai: Paris - Jean-Claude Gautrand
On City Streets: Chicago - Gary Stochl

João Pires